Helcio Teixeira Leite de Medeiros
Nem sempre a inveja é
aviltante. Eu mesmo já tive uma... "benígna".
Pra saldar as prestações de uma TV adquirida em consórcio
do Clube de Aeronáutica, lá ia eu, sempre no mesmo dia
de cada mês, fato que coincidia com a reunião mensal
de uma Turma de "mais antigos" da nossa Força Aérea,
onde se destacava a satisfação dos participantes que
se confraternizavam em ternos e saudosos abraços.
Puxa... e eu só via meus colegas de turma, quando um se punha
deitado em decúbito dorsal, tendo, à sua volta, quatro
ardentes velas.
Comentando com o colega Cel Fernando Gomes sobre a idéia de
nos reunirmos, pelo menos uma vez por ano, fui por ele lembrado que,
em março, que se aproximava, completaríamos 40 anos
de ingresso na velha Escola de Aeronáutica, do lendário
Campo dos Afonsos.
Pronto... isso foi o bastante para que nos dispuséssemos a
festejar, no mesmo local, aquela data de praça com tanto ardor
que, conseguimos pôr em forma, por altura, 75% dos remanescentes
Cadetes-do-Ar de 1946, nisso incluindo os moradores fora do Rio de
Janeiro, que nos alegraram com suas presenças. Para tal, tivemos
a colaboração do Ten-Brig-do-Ar Nelson Fish de Miranda,
e dos Maj-Brig-do-Ar Nélson Taveira e Tabyra de Braz Coutinho,
colegas de nossa turma que, na ocasião se encontravam ainda
na ativa e conseguiram "carona" para os que chamamos de
"estrangeiros".
Missa na Capela da Escola, visita ao antigo Corpo de Cadetes com colocação
de uma placa alusiva à data. Visita ao monumento do Cadete
Imortal, ao MUSAL, distribuição de bonés, chaveiros,
histórico, "tico-tico", e uma formatura em continência
ao nosso primeiro Comandante de Esquadrilha, o então Capitão
do Exército Adalberto de Moura Campos, hoje General Reformado,
que, naquela época, prestava serviço ao Ministério
da Aeronáutica. Teve até ordem unida para a "turma
dos batráquios", dada pelo velho cadete Assafin, terminando
com um lauto almoço. Tudo isso com as facilidades oferecidas
pelo então Maj-Brig-do-Ar Max Alvim, Comandante da UNIFA -
Universidade da Força Aérea, nosso companheiro de turma.
A grande repercussão do evento entre os fabianos, fez com que
nos animássemos para um "enterro dos ossos" no mês
seguinte no Clube de Aeronáutica, acabando por se tornar um
evento mensal obrigatório, prestigiado por inúmeros
CDF's (colegas de fé), sendo que hoje o Clube do Bolinha exige
a presença das Luluzinhas (esposas ou viúvas de colegas
que já decolaram).
Assim sendo, do Ten-Brigadeiro aos demais oficiais generais e superiores
da Turma, somos acompanhados por ex-cadetes que, por algum motivo
não se formaram conosco, e que hoje ocupam as mais variadas
atividades, tais como, Pilotos de Linha Aérea, Embaixador,
Médicos, Odontólogos, Engenheiros, Professores, Executivos
e ainda Oficiais do Exército e da Marinha de Guerra, além
de vários empresários.
Nessas ocasiões, batemos grandes papos, recordamos fatos alegres
e tristes dos Afonsos, contamos anedotas, dançamos, cantamos
hinos ou mesmo músicas populares e choramos pelos colegas que
nos deixam prematuramente.
Além dos almoços mensais realizados no Clube de Aeronáutica,
já se tornaram corriqueiros os passeios, com ônibus lotados,
para várias cidades do Estado do Rio de Janeiro e estados limítrofes.
Temos um Boletim Mensal, balancete financeiro, "site", "e-mail",
mural e até nossa bandeira.
Vale tudo... o penúltimo passeio foi feito no Bondinho de Santa
Teresa, com os passageiros de 1946 cantando "Seu condutor, dim,
dim", tendo o Coordenador-Geral da Turma travestido como condutor
lusitano de vastos bigodes, com moedas e notas entre os dedos.
A coesão e animação da Turma fizeram com que
inúmeros "adidos" tomassem parte como convidados
nos passeios e nos almoços mensais. Além deles, convidamos
personalidades que nos são caras, velhos comandantes, instrutores,
bedel, e, inclusive, alguns Ministros e Ex-Ministros da Aeronáutica.
Há 15 anos coordenando essa maravilhosa turma de amigos, com
um ano de interrupção devido a uma grave enfermidade,
dedico grande parte de minha vida a essa família de 1946, tendo
a cada almoço, a satisfação do
dever cumprido , devido aos resultados obtidos e à animação
do grupo; sinto-me até "prosa" por desempenhar tão
honrosa função.
Nota-se, sempre, ao encerrarmos cada evento, a satisfação
dos colegas e convidados, pelos comentários manifestados, por
agradecimentos e elogios a quem os convidou.
Por tudo isso sou estimulado a continuar, cada vez mais, apoiando
esse extraordinário grupo. Nada porém me emocionou tanto,
quanto a leitura de uma carta recebida por um colega da turma, que
lhe fora enviada por seu amigo, convidado em um dos nossos almoços.
Orvalhou-me os olhos de satisfação e orgulho por pertencer
a essa Turma.
E você leitor, que participa dos almoços da sua turma,
leia, por favor.
Nova Friburgo, 27 de abril de
2001
Meu caro Waldemar
Já há algum tempo
que lhe devo esse agradecimento. Mas a simples ação
de escrever uma nota se torna um dos pequenos dilemas da existência:
ou se escreve algo rápido, perfunctório, mas que nos
livra logo da incumbência, ou se espera até que os humores,
o tempo, as musas estejam todos de acordo para se poder escrever ao
amigo como ele merece. Venceu o segundo.
Eu poderia lhe agradecer ter-me proporcionado uma bela tarde, ter-me
oferecido um bom almoço ou ter-me presenteado com mais uma
bela - e instrutiva! - estória para meus arquivos eletrônicos.
Mas, não. Quero lhe agradecer por ter me mostrado algo que
nunca havia visto antes: uma Turma.
Quem tem uma turma, um grupo de amigos com os quais se atravessa a
vida, sabe o tesouro que tem em mãos. Eu, que não guardo
amizade coletiva nem de colégio, nem de faculdade, nem de coisa
alguma, me enterneço vendo o valor que vocês têm
uns para os outros, o carinho com o qual se encontram há tanto
tempo. Se existe, afinal, a boa inveja, aquela que nos faz ter vontade
de também alcançar algo e não de fazer com que
alguém perca aquilo que não temos, é esta a que
tenho de vocês.
E há mais! Além de ser, por si, uma turma de amigos,
vocês encarnam algo que talvez esteja se perdendo neste mundo:
o patriotismo, o orgulho da bandeira, da farda, a consciência
de servir à Pátria. Não importa se com armas,
com penas ou esquadros. Vê-los é salutar, é instrutivo,
é inspirador. Nesse tempo em que a História que se conta
é parcial, viciada e voltada para afastar os jovens das instituições
que honram e defendem nossa pátria, é bom, muito bom,
ver tanta gente orgulhosa da Força que guarda nossos ceús.
Foi uma honra poder cantar Bandeirantes do Ar ao seu lado.
Um forte abraço do amigo,
José Armando W. P. Jeronymo
Engenheiro
O autor é o Coordenador-Geral da Turma
de Cadetes-do-Ar de 1946